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Vila Madá nos idos de 1960

Na esquina da Fradique Coutinho com a Inácio Pereira da Rocha, onde hoje tem uma casa de empanadas, tinha a farmácia do seu Permínio. Permínio. Ele era uma espécie de “digital influencer” do bairro na área da saúde. Pra assuntos menos graves consultávamos o seu Permínio. Uma vez ele me diagnosticou com escarlatina quando, na verdade, eu tinha catapora. Não tinha esse história de SUS nem de convênio médico. Quando alguém da família ficava doente ia no consultório do médico, no caso o doutor Jacó, que morava e clinicava num sobrado ali perto.

Onde hoje é o Galinheiro tinha a venda. Era lá que a gente comprava arroz e feijão – lógico, a granel – e bolacha Maria ou Maizena. Na época, grama era grama mesmo, tanto fazia de jardim quanto de peso, e a gente concordava no feminino. Uma vez minha mãe mandou meu irmão comprar duzentas gramas de presunto pra fazer sanduíche. O dono tinha acabado de comprar a máquina de cortar. Ele pôs o presunto na máquina, caprichou a pontaria e… zás! Cortou um bife único do presunto. Imagina a reação da minha mãe quando meu irmão chegou com aquilo.

Tinha o bar do seu João que vendia pão e leite. E o carvoeiro seu José que também criava porco. Quando matava um, minha mãe comprava o toucinho pra fazer banha.

Pra você ver como os tempos eram antigos, o Estado de São Paulo ficava na região Sul e o Rio de Janeiro tinha mais gente que aqui. A propaganda política eram faixas com o nome e foto  do candidato que as pessoas punham na porta de casa. Telefone era artigo de luxo e minha mãe conversava com a vizinha por cima do muro, subindo num caixote.

Voltávamos da escola de bonde. Descíamos na Teodoro Sampaio e subíamos a Fradique a pé, porque não tinha transporte público. Por volta de 1958 asfaltaram a nossa rua e depois puseram o bonde. Era o começo do fim daquela Vila Madalena de ruas de terra e jeitão de cidade do interior onde eu cresci.

Mas a história não terminou aí não. Um dia, o vizinho da casa ao lado espantou o bairro: ele estacionou na porta da casa dele um Chevrolet rabo-de-peixe zero quilômetro, ano 59. Na época, pouquíssimos tinham um carro assim, ainda mais num bairro de periferia. Era um engenheiro da prefeitura enriquecendo rapidamente. Anos depois o nome dele apareceu nos jornais com denúncia de corrupção. Não sei que fim levou essa história mas pelo que se vê no Brasil de hoje é uma história que não teve fim.

PAULO D´AREZZO

Morador do bairro

Porque hostel é assim…

Esqueça hotel, pousada, resort. Se você quer se divertir, ouvir histórias engraçadas, conhecer gente de todo canto e, às vezes, entrar numas roubadas, teu lugar é num HOSTEL.

 

Dia desses, a gente recebeu um hóspede espanhol aqui. Descobrimos que ele vivia viajando a trabalho e sempre ficava em hotéis de grandes redes mundo a fora. Adivinha em que quarto ele quis passar as férias: num quarto compartilhado com outras sete pessoas.

 

Um hostel proporciona experiências que nenhum outro lugar, nem de longe, vai oferecer. A geladeira compartilhada é um belo exercício de respeito pelo que é do outro. Cada comida tem uma etiqueta com o nome do hóspede e ninguém toca. Agora, o que tá sem nome, é da galera. É uma lei implícita e que funciona.

 

Na cozinha compartilhada, rolam os papos mais incríveis. Não é exagero dizer que os jantares são quase terapêuticos. Não é porque é nossa casa, mas esse lugar é uma delícia.

 

As pessoas se sentem em casa mesmo. Bem, às vezes se sentem em casa demais. Certa vez, recebemos um hóspede que tinha uma certa dificuldade em lavar a própria louça. Depois de alguns puxões de orelha, ele entendeu a regra básica de hostel: sujou, lavou.

 

Por falar em compartilhado, o banheiro também é de uso coletivo. Volta e meia, você cruza com um cara de toalha cruzando a sala, uma menina de pijama pela casa…

 

A gente sempre gostou de receber amigos, de ter a casa cheia, mas esse assunto de hostel é bem novo pra gente. O nosso está completando o primeiro ano. Já temos várias histórias pra contar. Elas virão no seu tempo.

 

Patrícia Taufer Zandonai

Jornalista e Hosteleira

A cozinha, o coração da casa

Não sei o que acontece, mas o que vem de chef de cozinha e cozinheiro se hospedar com a gente, não tá no gibi. É claro que a gente ama, sempre rola um prato especial pro staff e para os nossos hóspedes. Primeiro foi William Williges, um gaúcho que participou do Master Chef Profissional/2017. Ele preparou para gente anchova recheada que tava incrível. Depois veio outra gauchinha, a Jéssica. Uma sexta-feira ela me falou:

– Patrícia, posso preparar o café da manhã para os teus hóspedes?

– Claruuuu! Ela fez bem mais do que isso, nos ensinou a fazer pães, panquecas. Graças a ela implementamos nosso café da manhã que até então não existia. Tenho que confessar, pão feito em casa e panquecas são exceção, mas bolo sempre fresquinho, isso a gente tem e é sempre sucesso.

Depois veio outra fofa, também de nome Jessyka. Durante sua temporada na casa, ela preparou pra gente, frango com quiabo. Pensa numa delícia. De sobremesa, o tradicionalíssimo brigadeiro. Dois hóspedes americanos, que nunca tinham comido nem quiabo, nem brigadeiro, saíram da mesa com gostinho de Brasil na memória.

Nosso obrigado mais sincero a essa turma das panelas.

 

Patrícia Taufer Zandonai

Jornalista e Hosteleira