Na esquina da Fradique Coutinho com a Inácio Pereira da Rocha, onde hoje tem uma casa de empanadas, tinha a farmácia do seu Permínio. Permínio. Ele era uma espécie de “digital influencer” do bairro na área da saúde. Pra assuntos menos graves consultávamos o seu Permínio. Uma vez ele me diagnosticou com escarlatina quando, na verdade, eu tinha catapora. Não tinha esse história de SUS nem de convênio médico. Quando alguém da família ficava doente ia no consultório do médico, no caso o doutor Jacó, que morava e clinicava num sobrado ali perto.

Onde hoje é o Galinheiro tinha a venda. Era lá que a gente comprava arroz e feijão – lógico, a granel – e bolacha Maria ou Maizena. Na época, grama era grama mesmo, tanto fazia de jardim quanto de peso, e a gente concordava no feminino. Uma vez minha mãe mandou meu irmão comprar duzentas gramas de presunto pra fazer sanduíche. O dono tinha acabado de comprar a máquina de cortar. Ele pôs o presunto na máquina, caprichou a pontaria e… zás! Cortou um bife único do presunto. Imagina a reação da minha mãe quando meu irmão chegou com aquilo.

Tinha o bar do seu João que vendia pão e leite. E o carvoeiro seu José que também criava porco. Quando matava um, minha mãe comprava o toucinho pra fazer banha.

Pra você ver como os tempos eram antigos, o Estado de São Paulo ficava na região Sul e o Rio de Janeiro tinha mais gente que aqui. A propaganda política eram faixas com o nome e foto  do candidato que as pessoas punham na porta de casa. Telefone era artigo de luxo e minha mãe conversava com a vizinha por cima do muro, subindo num caixote.

Voltávamos da escola de bonde. Descíamos na Teodoro Sampaio e subíamos a Fradique a pé, porque não tinha transporte público. Por volta de 1958 asfaltaram a nossa rua e depois puseram o bonde. Era o começo do fim daquela Vila Madalena de ruas de terra e jeitão de cidade do interior onde eu cresci.

Mas a história não terminou aí não. Um dia, o vizinho da casa ao lado espantou o bairro: ele estacionou na porta da casa dele um Chevrolet rabo-de-peixe zero quilômetro, ano 59. Na época, pouquíssimos tinham um carro assim, ainda mais num bairro de periferia. Era um engenheiro da prefeitura enriquecendo rapidamente. Anos depois o nome dele apareceu nos jornais com denúncia de corrupção. Não sei que fim levou essa história mas pelo que se vê no Brasil de hoje é uma história que não teve fim.

PAULO D´AREZZO

Morador do bairro